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Domingo , 29 de Junho de 2008


O LUTADOR (PARTE I)

O LUTADOR

 

 CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Carlos Drummond de Andrade

 

Lutar com palavras

é a luta mais vã.

Entanto lutamos

mal rompe a manhã.

São muitas, eu pouco

Algumas, tão fortes

como o javali.

Não me julgo louco.

Se o fosse, teria

poder de encantá-las.

Mas lúcido e frio,

apareço e tento

apanhar algumas

para meu sustento

num dia de vida.

Deixam-se enlaçar,

tontas à carícia

e súbito fogem

e não há ameaça

e nem há sevícia

que as traga de novo

ao centro da praça.

Insisto, solerte.

Busco persuadi-las.

Ser-lhes-ei escravo

de rara humildade.

Guardarei sigilo

de nosso comércio.

Na voz, nenhum travo

de zanga ou desgosto.

Sem me ouvir deslizam,

Perpassam levíssimas

e viram-me o rosto.

Lutar com palavras

parece sem fruto.

Não têm carne e sangue...

Entretanto, luto.

 

Palavra, palavra

(digo exasperado),

se me desafias,

aceito o combate.

Quisera possuir-te

neste descampado,

sem roteiro de unha

ou marca de dente

nessa pele clara.

Preferes o amor

de uma posse impura

e que venha o gozo

da maior tortura.

Escrito por Neguleu às 12h26
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O LUTADOR (PARTE II)

Luto corpo a corpo,

luto todo o tempo

sem maior proveito

que o da caça ao vento.

Não encontro vestes,

não seguro formas,

é fluido inimigo

que me dobra os músculos

e ri-se das normas

da boa peleja.

 

Iludo-me às vezes

pressinto que a entrega

se consumará.

Já vejo palavras

em coro submisso,

esta me ofertando

seu velho calor,

outra sua glória

feita de desdém,

outra de ciúme,

e um sapiente amor

me ensina a fruir

de cada palavra

a essência captada,

o sutil queixume.

Mas ai! é o instante

de entreabrir os olhos:

entre beijo e boca,

tudo se evapora.

O calor do dia

ora se conclui

o inútil duelo

jamais se resolve.

O teu rosto belo,

ó palavra, esplende

na curva da noite

que toda me envolve.

Tamanha paixão

e nenhum pecúlio.

Cerradas as portas,

a luta prossegue

nas ruas do sono.

Escrito por Neguleu às 12h22
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Domingo , 22 de Junho de 2008


UMA ORAÇÃO

Uma oração

 

JORGE LUIS BORGES

Jorge Luis Borges


Minha boca pronunciou e pronunciará, milhares de vezes e nos dois idiomas que me são íntimos, o pai-nosso, mas só em parte o entendo. Hoje de manhã, dia primeiro de julho de 1969, quero tentar uma oração que seja pessoal, não herdada. Sei que se trata de uma tarefa que exige uma sinceridade mais que humana. É evidente, em primeiro lugar, que me está vedado pedir. Pedir que não anoiteçam meus olhos seria loucura; sei de milhares de pessoas que vêem e que não são particularmente felizes, justas ou sábias. O processo do tempo é uma trama de efeitos e causas, de sorte que pedir qualquer mercê, por ínfima que seja, é pedir que se rompa um elo dessa trama de ferro, é pedir que já se tenha rompido. Ninguém merece tal milagre. Não posso suplicar que meus erros me sejam perdoados; o perdão é um ato alheio e só eu posso salvar-me. O perdão purifica o ofendido, não o ofensor, a quem quase não afeta. A liberdade de meu arbítrio é talvez ilusória, mas posso dar ou sonhar que dou. Posso dar a coragem, que não tenho; posso dar a esperança, que não está em mim; posso ensinar a vontade de aprender o que pouco sei ou entrevejo. Quero ser lembrado menos como poeta que como amigo; que alguém repita uma cadência de Dunbar ou de Frost ou do homem que viu à meia-noite a árvore que sangra, a Cruz, e pense que pela primeira vez a ouviu de meus lábios. O restante não me importa; espero que o esquecimento não demore. Desconhecemos os desígnios do universo, mas sabemos que raciocinar com lucidez e agir com justiça é ajudar esses desígnios, que não nos serão revelados.

Quero morrer completamente; quero morrer com este companheiro, meu corpo.

Jorge Luis Borges nasceu em 1899 na cidade de Buenos Aires, capital da Argentina e faleceu em Genebra, no ano de 1986.

É considerado o maior poeta argentino de todos os tempos e é, sem dúvida, um dos mais importantes escritores da literatura mundial.

"Seu texto é sempre o de uma pessoa que, reconhecendo honestamente a fragilidade e as limitações do ser humano,

nos coloca diante de reflexões nas quais, com freqüência, está presente o nosso próprio destino." (Miguel A. Paladino).

Algumas obras do autor:

- Fervor de Buenos Aires
- Lua de frente
- Inquisições (renegado pelo autor)
- O Aleph
- Ficções
- História Universal da infâmia
- O informe de Brodie
- O livro de areia
- O livro dos seres imaginários
- História da eternidade
- Nova antologia pessoal
- Prólogos
- Discussão
- Buda
- Sete noites
- Os conjurados
- Um ensaio autobiográfico (com Norman Thomas di Giovanni)
- Obras completas (4 volumes)
- Elogio da sombra


O poema acima foi extraído do livro "Elogio da Sombra", Editora Globo - Porto Alegre, 2001, pág. 75

(tradução: Carlos Nejar e Alfredo Jacques; revisão da tradução: Maria Carolina de Araújo e Jorge Schwartz).

 http://www.releituras.com/jlborges_menu.asp

Escrito por Neguleu às 18h00
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Terça-feira , 10 de Junho de 2008


TÔ DENTRO!!!

Escrito por Neguleu às 01h01
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Domingo , 08 de Junho de 2008


ALDIR BLANC DESCE A LENHA!

Quarta-feira, 28 de Maio de 2008

Nós, do Afgalisteu

 

ALDIR BLANC, PALMEIRA DO MANGUE.

ALDIR BLANC, PALMEIRA DO MANGUE.

Não é difícil, na política brasileira, achar figuras que nos provoquem tanto nojo quanto Bob Jefferson, Réu-nan Cagalheiros; os inúmeros juízes ab-solventes; Silvinho Meu Calhambeque; o falso moralista – e riquíssimo (cadê a Receita?) – Crasso Jereichato; o cara de palhaço Álvaro “Peruca” Dias ou O Vazador (toma Imosec) ou Agripino “Bochecha” Maia, que considera indigno mentir, sob tortura, para proteger companheiros de ideal (como se ele falasse a verdade...). Mas como o Brasil, a exemplo do futebol, é uma caixinha de surpresas, eis que surge a excrescência de Paulinho da Força. Faz força que sai (Freud estava certo quando associou merda a dinheiro). Força, Paulinho – o que Álvaro “Peruca” não precisa fazer pra rolar cocô. Paulinho (Força) Sindical, por ironia do destino, é do mesmo PDT que perdeu recentemente um homem de bem: o Senador Jefferson Péres. Esse era uma reserva moral de fato, ao contrário do que dizem de Jarbas “Fodam-se os Escrúpulos” Little Bird.

O deputado Paulinho – não confundir com Huguinho, Zezinho e Luizinho, embora nós sejamos patos – sujou a barra sindical que já é, faz tempo, pau de galinheiro. Ele, fazendo força, disse que seu nome aparecia, no inquérito sobre corrupção junto ao BNDES, 3 (três) vezes. Revendo direitinho as contas, verificaram que Paulinho não sabe somar, o que não é novidade. Seu nomezinho surge das sombras apenas 75 (setenta e cinco) vezes, o que deve ser um recorde até para a dupla, ainda solta, Mamaluf & Pittanic. Já o advogado do Pestinha, desculpem, Paulinho, argumenta:

- Grampos são apenas interpretações.

Sacaram? Você ouve uma fita:

- Tem que lembrar dos 10% do Paulinho!

- Certo. Já foi feito.

Ora, pode ser uma conversa sobre novenas rezadas por beatas para proteger o Frei Galvão do sindicalismo: 10% de todas as Aves Marias são do escrotinho, perdão, Paulinho. Que gente maldosa!

Esse é um dos maiores problemas brasileiros: perdemos completamente a confiança em nossos políticos. Que antipatriótico de nossa parte! Só por causa dos Anões do Orçamento; dos Mensaleiros, dos sucessivos presidentes daquela Casa de Tolerância e seus imbróglios, das vacas às mixarias pro restaurante funcionar; só por causa do escândalo envolvendo cartões corporativos; do Bob Jefferson dizendo na CPI : “Peguei 4 (quatro) milhões e não digo onde estão. Mato essa nos peitos”. Puxa, o bufão de opereta tem tetas maiores que as exibidas pela infeliz atriz norte-americana Jayne Mansfield num baile de gala do Teatro Municipal, lá pelos idos de 1950/60. Os bancos batem recordes sobre recordes em lucros, faturando em cima de taxas imorais; ministros são afastados por corrupção; um ex-presidente do senadinho comprou galinha por novilha – um calvário, pra quem é dono de uma cidade inteira; sacas e malas com dinheiro vivo trocam de mãos (ou de patas) entre empreiteiros, lobbistas, laranjas e outros frutos da cegueira governamental; pastores evangélicos metem dólares na bíblia e culpam os filhos; assassinos óbvios, já condenados, são absolvidos depois de ameaças aos apavorados membros do júri; capangas matam por amor ao patrão. Teve até terremoto! A terra tremeu quando soube que o Corregedor da Câmara é o Inoçonso (PR-PE).

Paulinho não tem vacas e bodes, nem piranhas como o Réu-nan, ou o modesto rebanho do Roriz. Paulinho tem arapongas! Se continuar nessa batida, vai construir um porão com torturadores de confiança, sangue novo, jovens dinâmicos, nada daqueles incompetentes que explodiram até os próprios culhões no Riocentro. Bolinha, quer dizer, Paulinho, pretende pressionar Tarso Genro, que é só Ministro da Justiça, uma folha ao vento, diante das massas que Paulinho representa.

           Um lobbista entrou no gabinete de Paulinho carregando a eterna mochila. Não há nada de errado nisso. Era alpinista ou estava só levando o Paulinho para Escola Ursinho Gatuno, na qual ele cursa, com notas altas, todas de 100, o primário? Paulinho ainda pretende processar a imprensa que denunciou as falcatruas do BNDES. Isso mesmo, força! Joga a fralda cagada no ventilador. Olha, pede pra tua secretária passar Drapolene nas assaduras do teu rabo preso.

Todos os envolvidos no cagalhetê se declararam inocentes mas, por vias urinárias das dúvidas, pediram habeas-corpus.

            No caso da Prefeitura de Praia Grande, um contratinho de apenas 130 milhões de reais, só 1 (um) milhão foi destinado ao “custo político”. Que fique cravado nos anais de nossa história esse exemplo de propina módica, ao contrário dos exorbitantes subornos pagos por empreiteiros, ruralistas, usineiros, etc.

O BNDES não é “caso isolado”, como diziam os gorilas no tempo da ditadura. Há varreduras e vassouradas em Furnas, na Eletrobras, na Eletropaulo (será a eletro do Paulinho?!?), financeiras diversas. Os planos de saúde jogam uns barros na assepsia e matam. Imaginem que querem considerar o stent, um dispositivo que salva milhares e milhares de vidas no mundo todo em cirurgias cardíacas, uma “operação cosmética”, só pra não ressarcir o que já foi pago. É porque não é no cu deles, de onde saem os barros.

            Não tem água na bica, mas somos arrastados e mortos pelo mesmo elemento em qualquer toró (não confundir com o quebra-tíbias do Fla) de merda. Ficamos engarrafados horas e, quando nos livramos, uma bala perdida nos carimba a testa com o certificado: “Conseguiram passar desta para a melhor”.

Como se não nos bastassem os combates intestinos, os defensores do Ocidente – depois dos massacres promovidos no Iraque e no Afeganistão – querem a Amazônia e nossas águas territoriais por meio de “tratados” (os índios americanos conhecem bem o resultado desses dicumentos) ou do big stick. Um babaca disse que é mole comprar a Amazônia por 50 bilhões de dólares. Além de babaca, é ladrão e/ou desinformado. Recente pesquisa da ONU, só para a área de medicamentos a partir da fauna e da flora, estimou a Amazônia em cerca de 3 (três) trilhões de dólares. Por aí, dá pra vocês verem que eles não vacilarão na hora de invadir... Em cada esquina de nossas cidades, outrora cruzamentos bucólicos, bandos de viciados fumam pedra.

Numa frase famosa, sobre a snob corrupção britânica, o escritor Graham Greene girou a metralhadora: “Se é pra isso, que venham os russos”. Nós não temos alternativas, mesmo retóricas. Que venham... que venham... O quê? Quem? O general Custer? O DEM? O PDT do Paulinho? O caralho a quatro? Delegados comprando pão, cumpridores da Lei, são executados com tiro na nuca. O primeiro suspeito, da PM, já foi queimado. Os colarinhos brancos não trepidam diante da roubalheira porque há o Supremo como última instância, que os soltará para merecidas férias em Roma, Paris, Amsterdã (essa tem haxixe em buteco, putas na vitrine e diamantes baratinhos. Pra quem já teve um ministro da Justiça com a poupança chafurdando em gemas...).

Quem está com a razão nessa selva caótica é o rubronegro Ronaldo, o Fenômeno: “Não tem cu, vai cu mesmo”, uma grande frase à qual acrescento outra, do meu afilhado Basile, num carteado do Momo:

- Salve-se quem fuder!

Mas nem tudo está perdido: vamos, com nossa criatividade e tecnologia de ponta, fabricar caças a jato. Traficantes da Mangueira, aqueles que construíram a fortaleza com seteira e tudo, já encomendaram o primeiro. Carece de fundamento a notícia de que um grupo do BNDES ligado a Paulinho estaria intermediando a compra da aeronave.

No exato momento em que termino esse textículo, dá no jornal que cúmplices de Pau-Linho tiveram passagens e estadias pagas por um prostíbulo. Não há tanta diferença assim entre lupanares e instituições financeiras dirigidas por Sacacciolas, Caymans de Sá e outros ternos de grupo e de grifes. Há ligações entre o esquema de Paulinho e a notória cadeia (que não se perca pelo nome) de lojas Marisa. Uma pergunta: porque o BNDES empresta milhões e milhões a esses antros? O triste é que, com o exemplo de Paulinho, numa das forças fundamentais na luta contra a ditadura já deve haver vários elementos pensando não em escolaridade para seus filhos, melhor saúde, lazer, distribuição de renda..., mas em como aliar-se ao trambique. Parafraseando uma citação famosa: a carne é fraca e eles não leram livro algum.

Meu mote, de várias matérias anteriores, se encerra por hoje: por que o Marcola se regeneraria.

 

( Texto retirado do blog de Aldir Blanc, http://www.palmeiradomangue.blogspot.com/ )

 

 

Escrito por Neguleu às 10h56
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Terça-feira , 06 de Maio de 2008


É FREUD!

           É FREUD!

 

 

“À

s vezes um charuto é apenas um charuto”. (S. Freud citado pela escritora Lya Luft em entrevista, nesta segunda-feira, ao programa Roda Viva da TV Cultura. Segundo a moça, foi o que o rapaz respondeu ao ser indagado se o charuto – que ele muito apreciava fumar – representaria algum símbolo fálico).

Escrito por Neguleu às 15h30
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Segunda-feira , 24 de Março de 2008


PENSANDO BEM...

 

 

 

M

eu, cuidado: lembre-se de que o que você pensa é apenas (e eu disse APENAS!) o que você pensa. (...E eu disse isso a mim mesmo na solidão daquele quarto escuro, olhando as próprias unhas, após quarenta e oito horas de profunda, densa e ininterrupta reflexão a respeito desse assunto: o pensar. Em jejum e na semana do Carnaval).

Escrito por Neguleu às 21h52
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Segunda-feira , 25 de Fevereiro de 2008


EM SI BEMOL

EM SI BEMOL

 

  

                                   Porque reler é mais importante do que ler; porque refletir é mais importante que pensar. Porque o passado há de servir pra algo no presente e/ou futuro. Por tudo isso, esse “Em Si Bemol” que “incha” e se transforma com(o) o tempo. (Como quase tudo na vida).

 

D

eu a hora. O rádio me desperta, a cama me expulsa, banheiro, sentar-se ao computador: Escrever é uma ordem. Não importa de onde venha, a mensagem costuma chegar desarticulada: algumas palavras que formam frases, ela nunca vem completa, se desenvolve e se completa apenas à medida que é escrita. Escrever é uma ordem.

A conversa na madrugada com a amiga que também não dorme, alguns sonhos e o alerta de quem se ama: “sonhar é perigoso”.

As sensações do branco, do vermelho, do violeta e do azul-anil. Alguém se lembra do que é o anil? O anil ainda existe? Eu me lembro da mãe usando o anil no tanque com a água que íamos buscar na bica. Alguém se lembra do que é bica? (Um amigo chama aquilo de fio d’água).  Havia também o poço no fundo do quintal, mas a bica, mais ao fundo, mais abaixo, no quintal vazio do vizinho sempre ausente, nunca secava. Não havia energia elétrica nem bomba d’água nem água encanada nem asfalto. Isso foi num tempo em que os caminhões pipa ainda nem levavam água para o lugar. Os vizinhos, quase todos do bairro, se abasteciam no poço lá de casa enquanto ele não se exauria (poço bom, copioso, profundidade duns trinta metros, revestido por tijolinhos de barro) porque a bica era um pouco mais longe. Eram baldes e mais baldes, uma verdadeira procissão dia afora, dia adentro. As noites eram velas e principalmente lamparinas a querosene. Alguém se lembra do querosene?

As lamparinas eram feitas usando-se latas vazias do inseticida Detefon (alguém se lembra do Detefon?). Fazia-se um furo na pequena tampa circular com uma faca ou abridor de latas por onde se inseria um retalho de pano que servia de pavio. Abastecia-se a lata com querosene e embebia-se o pavio nele, parte do pavio fora da lata, parte maior dentro dela. Acendia-se o pavio e eu me impressionava com o fato interessantíssimo do pano nunca se queimar, a chama acesa, o que comburia era o querosene. Na semi-obscuridade a avó contava histórias de arrepiar sem tarja de censura por faixa etária. Pra ajudar no efeito, ela costumava nos dar doloridos e sempre inesperados beliscões nos momentos de maior suspense. Naqueles momentos, confesso que tinha muito medo da minha avó, mas eu não perdia uma só das histórias que ela contava.      

Do meio do quintal pra baixo viviam os altos eucaliptos, acima árvores frutíferas: goiabeiras (muitas), abacateiros, mangueiras, um pé de lima, um de laranja, um de figo, um imenso de amora (nunca mais vi um tão grande), um de mexerica, um de laranja de fazer doce plantado pela tia Fulana. De maneira quase baricêntrica dominava o fundo do quintal um eucalipto de porte que impressionou toda a minha infância. No seu robusto caule, em posição quase central em relação ao total de sua altura, havia uma deformidade em forma de cicatriz que chamava muito a minha atenção: Era uma verdadeira carranca natural na qual eu distinguia facilmente as feições malignas do Tranca-Rua. Ali eu via dois chifres, nariz e boca horrendos, uma expressão que, se olhada durante horas a fio parecia mesmo se modificar. Eu pensava que o Diabo vivia trancado ali naquele tronco vivo do eucalipto.

Mas esse Diabo não tinha quase nada do Diabo Católico ou Evangélico não, tinha muito mais de Exu ou de Saci Pererê. Pra mim, ele não era o puro Mal Encarnado, mas apenas um sujeito que devia ser tratado com delicadeza, respeito e muito cuidado: Um malandro melindroso que podia fazer maldades se não fosse bajulado de alguma forma. Passei muitas manhãs e tardes ali, rezando, orando, (de um modo que aprendi sem ensino e depois esqueci) clamando para que a carranca não fizesse mal algum nem a mim nem aos meus nem a todos vizinhos que diariamente por ali passavam sem percebê-la carregando os baldes de água.

 

As músicas vinham pelo grande rádio a pilhas. As irmãs chamavam: “Neguleu, corre, ta tocando a sua música!”.

 

 

Escrito por Neguleu às 22h48
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Quinta-feira , 21 de Fevereiro de 2008


A VIDA É A ARTE DOS ENCONTROS.

Samba da Bênção

(Vinícius de Moraes / Baden Powell)

 

Cantado

É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração

Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não

Falado

Senão é como amar uma mulher só linda
E daí? Uma mulher tem que ter
Qualquer coisa além de beleza
Qualquer coisa de triste
Qualquer coisa que chora
Qualquer coisa que sente saudade
Um molejo de amor machucado
Uma beleza que vem da tristeza
De se saber mulher
Feita apenas para amar
Para sofrer pelo seu amor
E pra ser só perdão

Cantado

Fazer samba não é contar piada
E quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração

Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não

Falado

Feito essa gente que anda por aí
Brincando com a vida
Cuidado, companheiro!
A vida é pra valer
E não se engane não, tem uma só
Duas mesmo que é bom
Ninguém vai me dizer que tem
Sem provar muito bem provado
Com certidão passada em cartório do céu
E assinado embaixo: Deus
E com firma reconhecida!
A vida não é brincadeira, amigo
A vida é arte do encontro
Embora haja tanto desencontro pela vida
Há sempre uma mulher à sua espera
Com os olhos cheios de carinho
E as mãos cheias de perdão
Ponha um pouco de amor na sua vida
Como no seu samba

Cantado

Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não

Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração

Falado

Eu, por exemplo, o capitão do mato
Vinicius de Moraes
Poeta e diplomata
O branco mais preto do Brasil
Na linha direta de Xangô, saravá!
A bênção, Senhora
A maior ialorixá da Bahia
Terra de Caymmi e João Gilberto
A bênção, Pixinguinha
Tu que choraste na flauta
Todas as minhas mágoas de amor
A bênção, Sinhô, a benção, Cartola
A bênção, Ismael Silva
Sua bênção, Heitor dos Prazeres
A bênção, Nelson Cavaquinho
A bênção, Geraldo Pereira
A bênção, meu bom Cyro Monteiro
Você, sobrinho de Nonô
A bênção, Noel, sua bênção, Ary
A bênção, todos os grandes
Sambistas do Brasil
Branco, preto, mulato
Lindo como a pele macia de Oxum
A bênção, maestro Antonio Carlos Jobim
Parceiro e amigo querido
Que já viajaste tantas canções comigo
E ainda há tantas por viajar
A bênção, Carlinhos Lyra
Parceiro cem por cento
Você que une a ação ao sentimento
E ao pensamento
A bênção, a bênção, Baden Powell
Amigo novo, parceiro novo
Que fizeste este samba comigo
A bênção, amigo
A bênção, maestro Moacir Santos
Não és um só, és tantos como
O meu Brasil de todos os santos
Inclusive meu São Sebastião
Saravá! A bênção, que eu vou partir
Eu vou ter que dizer adeus

Cantado

Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não

Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração

Escrito por Neguleu às 10h01
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Terça-feira , 12 de Fevereiro de 2008


SOU NEGRO

SOU NEGRO

A Dione Silva

 

SOLANO TRINDADE

 

Sou Negro
meus avós foram queimados
pelo sol da África
minh'alma recebeu o batismo dos tambores atabaques, gonguês e agogôs

 

Contaram-me que meus avós
vieram de Loanda
como mercadoria de baixo preço plantaram cana pro senhor do engenho novo
e fundaram o primeiro Maracatu.

 

Depois meu avô brigou como um danado nas terras de Zumbi
Era valente como quê
Na capoeira ou na faca
escreveu não leu
o pau comeu
Não foi um pai João
humilde e manso

 

Mesmo vovó não foi de brincadeira
Na guerra dos Malês
ela se destacou

 

Na minh'alma ficou
o samba
o batuque
o bamboleio
e o desejo de libertação...

 

 

Escrito por Neguleu às 00h17
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Domingo , 20 de Janeiro de 2008


UMA FOTO QUE NÃO ERA PARA A CAPA.

A Foto da Capa

Chico Buarque

 

 

 

O retrato do artista quando moço

Não é promissora, cândida pintura

É a figura do larápio rastaqüera

Numa foto que não era para capa

Uma pose para câmera tão dura

Cujo foco toda lírica solapa

Era rala a luz naquele calabouço

Do talento a clarabóia se tampara

E o poeta que ele sempre se soubera

Claramente não mirava algum futuro

Via o tira da sinistra que rosnara

E o fotógrafo frontal batendo a chapa

É uma foto que não era para capa

Era a mera contracara, a face obscura

O retrato da paúra quando o cara

Se prepara para dar a cara a tapa

Escrito por Neguleu às 03h11
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Domingo , 13 de Janeiro de 2008


MENINOS

           Aproveitando a versatilidade que o "intrumento" Blog nos proporciona, passarei a publicar fotos desse artista da objetiva que é também amigo de muitas andanças, o Renato Carlo. A coisa começou meio que de improviso por que resolvi publicar aqui esta foto que chamei de MENINOS muito tempo após ter a recebido do autor com o seguinte adendo: "Negão, você pode aproveitar essa foto onde quiser". Quando a publiquei pensei em escrever algo, mas, sinceramente achei completamente desnecessário e até mesmo prejudicial à apreciação isenta e pura da foto.

           Agora, num outro momento, resolvi como há muito é meu costume, explicar. He, he, he. Conversando por email com o Renato, ele resolveu me mandar mais uma dúzia de fotos que publicarei aos poucos. Talvez eu use as fotos pra ilustrar os textos, talvez use os textos produzidos pelas impressões causadas pelas fotos. Acho interessante a interlocução entre a multiplicidade de linguagens comunicativas. Então, adelante, vamos lá, lhes apresento, através da obra, Renato Carlo, o autor da "foto que não era para a capa". Sem comentários.

Fotografados por Renato Carlo, o Sebastião Salgado que se cuide!

Fotografados por Renato Carlo, o Sebastião Salgado que se cuide!

Escrito por Neguleu às 02h38
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EXCELÊNCIA EM MÚSICA CONTEMPORÂNEA.

DIRETO DO BLOG DO KIKO DINUCCI E DO DOUGLAS GERMANO.


 

Escrito por Neguleu às 02h34
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VEM NI MIM

VEM NI MIM

 

 

Ai chuva, vem ni mim.
Vem ni mim, chuva!
Peito aberto, coração exposto,
Um calor imenso,
Cai a chuva pra me refrescar.
Cai ni mim, chuva!
Vem, vem me molhar.

 


Escrito por Neguleu às 01h37
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Sábado , 12 de Janeiro de 2008


NÓIA TROPIQUENTE NUMA NOITE DE VERÃO.

NÓIA TROPIQUENTE NUMA NOITE DE VERÃO.

 

 

            Dando uma de filósofo: os elementos da dialética socrática não nos habilitam dizer nada a respeito de coisa qualquer. Todavia, eles também não nos impedem de pensar e categoricamente afirmar o contrário disso. Por exemplo, hoje, voltando calibrado do trabalho me deparei com um cão raivoso na rua de minha residência. Encarei o bicho com os olhos faiscando e caminhei pra cima do elemento (que fugiu espavorido!!!). Em alto e estridente português eu exortei ao quadrúpede: VOCÊ PENSA QUE PODE COMIGO, ANIMÁLIA? POSSO-TE MATAR FACILMENTE SER DE CURTA INTELIGÊNCIA! SEU CABEÇA OCA!!! Garanto que ele entendeu muito bem. Não sei se foram as gesticulações ou as palavras. Esses bichos, apesar de burros, são bem espertos, podem crer. Eu acho que o OSMAR SANTOS (O GRANDE OSMAR SANTOS - homem de rara, brilhante inteligência verbal que embutia, entre outros, FERNANDO PESSOA, nas suas narrativas futebolísticas) concordaria com isso sim.

Segundo minhas parcas informações, não há registros de humana pessoa humana que conseguisse articular com tanta clareza, rapidez e precisão tamanha quantidade de palavras por minuto em perfeito português. Agora, depois do acidente horrível sofrido por ele, virou pintor de quadros. Assim como Nelson Sargento, que, graças aos céus não sofreu acidente nenhum e continua produzindo, compondo excelentes sambas. Como se pode reparar ali na tela da TV Cultura, paulista, ele juntinho com o Eduardo Gudin e outro que infelizmente não identifiquei, olhando e comentando um telão onde Nelson Cavaquinho fazia misérias em seu instrumento (aquilo era um violão? Por certo que era, devia ser, instrumento daquele tipo deve ser comum nas terras celestes de além-vida). Eles tavam falando da técnica do falecido rapaz. Diz que tem cabra ai que tenta (SOMENTE TENTAM, COITADINHOS) imitar o jeito de tocar do Nelson (CAVAQUINHO, FOI O QUE EU DISSE, NÃO ME ENCHA O SACO, SATANÁS! NÃO VISTE QUE O SARGENTO PERMANECEU BEM INCÓLUME NO OUTRO E SEU PRÓPRIO PARAGRAFO? DÁ LINCENÇA, MEU!). Hein? SATANÁS? Ah, sim, é o nome do cachorro que por sinal virou muito meu amigo. Descobri que o bicho nem é tão burro não. Ele andou lendo os escritos secretos de Quincas Borba sobre o Humanitismo e resolveu aderir à essa complexa filosofia, que guarda sim alguma semelhança com o muito mais divulgado pacifismo de Gandhi. Foi sim, ele mesmo me disse, gente fina o Satã! Quem não virou muito meu amigo foi o Sócrates, tadinho! Apesar de minha insistência em tentar convencê-lo de que a psicanálise tinha algo a lhe dizer, o ateniense resolveu mesmo experimentar a tal da cicuta só pra saber que gosto aquilo tinha. Taí o tipo de curiosidade que nunca tive, manja? Ainda, é sim, ainda não tive. Você não soube? Eu acho que foi nesse fim de semana mesmo. Incluíram o cara nas estatísticas de morte violenta de fins de semana. Suicídio, né.

Bom, vamos fazer silêncio aí pô? O Bush, digo, Satanás tá reclamando, hora de dormir, né? Abraços e bom trabalho a todos inclusive pra você que ta tentando invadir meu orkut e PC, fdp desgraçado ou desgraçada, desgraciata, hum???? Ah, tá. Já mudei a senha sim (não era isso que vosmicê queria, querida?) e tou estudando a ciência de hackear pra contra-atacar, tá? Vamos brincar disso? Vamos? Hehehe. Tá bom, o livro tem apenas umas 500 páginas manja?, o que compensa é que vem com CINCO CDS COM SOFTWARES DE PROTEÇÃO. Fio, fia, se você não quer cansaço e muito trabalho, vai incomodar e invadir o micro de outro, vai. Te garantchooo que vai ser seguramente muito mais fácil. Mas, como diz o MANO BROWN: AÍ TENTA A SORTE, VALEU. Só que se eu pegar o seu IP vou mandar direto pra delegacia de crimes cibernéticos e você conversa lá com o seu delegado toma um cafezinho com ele, rapaz muito educado, cursou direito em faculdade de renome, sim, boa praça mesmo, simpaticão. Mas ele vai ter que te botar umas algemas por força do ofício e depois te mandar pra passar belas noites no xadrez, já imaginou filha?, já imaginou filho?, você ali, no meio daquele pessoal tão desprovido de recursos? Você ali tão cherosinho, tão cherosinha não é? Lembra?, você mesma me disse que usava sabonete íntimo. Nuoooooooooossssa, como diz o Zéphir. A galera do xilindró vai apreciar muito a sua asseada companhia. Então vai, tenta a sorte, ou desiste. Vai com deus filha, vai com deus filho...

 


 

Escrito por Neguleu às 00h53
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